Autismo - Aprendi que a maternidade não é sobre mim
Houve um tempo em que eu sonhava em ser mãe, mas meu sonho maternal ruiu.
Lembro-me claramente de passar em frente a uma loja e comprar um body com tema náutico porque em meu coração eu tinha certeza que seria mãe de um menino. Quase um ano depois, recebi o positivo, e depois em uma ultrassonografia eu confirmei minha vontade, era um menino.
Ele nasceu em um parto sofrido, era grande e bonito com longos dedos de pianista. Nada tinha me feito mais feliz em toda a minha vida. Ele foi crescendo, mas seus passinhos estavam demorando a vir, a fala também. Os marcos de desenvolvimento estavam atrasados e um alerta começou a soar em meu coração. Algo não estava indo como o esperado. Logo desconfiei do autismo e como uma pedra pesada a confirmação foi posta sobre os meus sonhos maternos.
No topo da minha arrogância, eu imaginei que teria o menino mais inteligente de todos os da sua classe. Imaginei que seria um músico mais extraordinário do que o pai ou o tio, que seria melhor pregador do que o pai, eu ou os avós, ou mais ainda, que os pregadores e teólogos que tanto admiro. Sonhei que meu filho seria um pequeno gênio, um teólogo, douto em algum assunto da sistemática, e diante daquele diagnóstico meu mundo desabou.
Por um bom tempo me escondi e dentro de mim uma enorme rebelião havia se formado. Meu subconsciente não estava dialogando com o meu consciente. Eu andava entre o inconformismo e a fé.
Foi então que através de mulheres cheias do Espírito Santo e homens sábios cujo galardão eu acredito que será bem grande, eu aprendi as lições mais valiosas da minha vida e duas delas eu gostaria de compartilhar com você.
A primeira lição é que a maternidade não é sobre mim e nem sobre você. Ter filhos não é sobre a satisfação dos meus sonhos maternais. Não se trata de ter orgulho de um filho e me satisfazer em seu sucesso mesmo que o sucesso que eu desejava fosse espiritual. Eu orava ardentemente para que meu filho fosse servo de Deus, um servo notável, cheio de obras que testificassem sua eleição para a salvação, porém, não se travava de mim, nem do meu útero, nem do meu sangue, nem dos meus genes. A maternidade se trata de dar glórias a Deus, exaltando seu poder de dar vida, de fazer do corpo de uma mulher pecadora, palco de sua soberania. Não se trata da minha satisfação, mas de satisfazer ao Deus Criador. Eu descobri que a vida do Lucas e o autismo dele me fazem debruçar, lançar-me rosto ao pó diante dos pés do Salvador e reconhecer minha pequenez, minha fragilidade, minha dependência e a idolatria ao meu ego que eu cultuava sem perceber. Ser mãe do Lucas expôs meus pecados, desnudou minha alma diante do Senhor e diante do espelho. E que ser humano desprezível pude ver! Porém, nesse momento também vi o Senhor Jesus sangrar seu amor por mim e me dar uma chance de ser a mãe que adora ao Senhor na maternidade, sendo fiel a Ele enquanto cuido do meu filho.
A segunda lição que eu aprendi é que a perspectiva do Senhor é perfeita e a minha é cheia de pressupostos mundanos. O meu olhar era preconceituoso, eu não via as bênçãos diárias que a vida do Lucas me proporcionava. Eu aprendi a louvar ao Senhor por coisinhas mínimas. Um olhar mais demorado do meu filho nos meus olhos me levava ao êxtase eu amava ainda mais o meu Senhor porque cuidava de nós e abastecia meu filho de capacidades que não contradizem a medicina, que são comuns para um autista que recebe cuidados, mas são capacidades dada das mãos do Senhor que nos cerca de recursos.
Eu aprendi a louvar ao Senhor pelas pequenas coisas, coisas que eu acho pequenas, mas que Ele se mostra em seu alto e sublime trono, poderoso, governando tudo... Inclusive o cérebro autista do meu lindo menininho que em sua infância cheia de limitações canta comigo só as vogais de canções sobre o amor de Deus demonstrando que da boca dos pequeninos sai o perfeito louvor, não pela música que cantam, mas porque por graça cantam.
Às vezes as pessoas se espantam com o fato de eu desejar mais filhos porque percebem como o Lucas me traz dificuldades e compromissos incomuns, limita os lugares que frequento e tudo mais. São consultas, atividades e gastos que as pessoas tomadas pelo deus da era contemporânea não compreendem. Talvez olhem pra mim e não vejam aquela mãe engajada nas redes, inteirada de todas as maratonas autistas da internet e realmente eu não fico expondo todos os avanços e terapias que ele faz porque meu filho não precisa ser explicado, não preciso dar relatório, não devo a ninguém os cuidados dados a ele, só devo a um, ao Senhor, que me responsabiliza da tarefa que me deu: cuidar do Lucas. "Autismo" não é o nome do meu filho, o nome dele é Lucas que está sendo educado para amar ao Senhor apesar do autismo. Por mais cuidados que essa condição exija, ele é bem mais do que um menino autista, ele foi chamado antes da fundação do mundo para ser do Senhor dentro e fora do espectro autista.
Criamos uma expectativa tão errada da vida cristã, demora muito para percebermos que a vida cristã se trata de Cristo e seu testemunho de salvação em nossas vidas, que nos ajuda a passar pelas mais diversas tribulações firmes na esperança da vida eterna com Ele. Para ser feliz como servo de Deus é necessário sempre saber que não é sobre nós, não somos os protagonistas da história, é Jesus Cristo o Senhor da história e tudo o que aconteceu desde sempre até eternamente sempre será a respeito dele.
Sobre ter mais filhos, eu sou esposa de um arqueiro, e talvez, se for a vontade do Criador, a aljava dele terá mais de uma flecha porque o alvo é Jesus e a ceara necessita de ceifeiros que desde a infância saibam as Sagradas Escrituras, que sejam sábios para a salvação e toda boa obra em Jesus Cristo.
Saiba que seu filho autista, prematuro, com paralisia cerebral, com delação em algum cromossomo, síndrome de Down ou qualquer outro tipo de atipicidade foi feito como qualquer outra criança, tecido no seu ventre, conhecido e amado pelo Senhor, sondado em seu deitar e levantar, havendo ou não palavras na boca dele, o Senhor conhece o coração do seu pequeno. O seu filho foi formado de maneira assombrosa e maravilhosa, quando você não sabia nada sobre a condição dele, os ossos dele não estavam encobertos do Senhor. O Senhor é o Deus da vida do seu filho e tem prazer nela. Ele é poderoso e provedor, te dará condições para criá-lo e criar seus irmãos e te fará feliz na maternidade quando você compreender que esse serviço não é um fardo como a mulher moderna prega, a maternidade é um serviço ao Senhor, prestado em tempo integral na missão mais importante do mundo: formar homens e mulheres tementes a Deus, prontos a pregar o evangelho neste mundo cada vez mais vil e perdido. Revista-se da couraça da justiça, calce as sandálias do evangelho e forme verdadeiros cristãos. Aprender a maternar na perspectiva bíblica leva tempo, acredite. Somos muito influenciadas pelas ideologias a nossa volta, mas ao convertermos nossa cosmovisão, tudo fica mais gostoso, mais bonito e mais santo, independente dos desafios típicos ou atípicos.
Que sua criança seja sempre um instrumento de exaltação ao Senhor porque o Pai Celeste tem prazer nela.
Mesmo já conhecendo sua historia me emociono mais uma vez....e me inspiro sempre!
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